Mudanças climáticas ameaçam futuro do caju no Nordeste brasileiro

O avanço do aquecimento global representa uma ameaça crescente para a agricultura do Nordeste brasileiro, região que pode enfrentar transformações drásticas em suas principais culturas até 2070. Pesquisas desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) indicam que culturas tradicionais da região, incluindo o caju, enfrentarão cenários climáticos cada vez mais desafiadores nas próximas décadas.

Segundo estudos do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Nordeste sofrerá impactos significativos com o aumento das temperaturas. As projeções climáticas simularam cenários futuros para 2020, 2050 e 2070, revelando um quadro preocupante para a agricultura regional.

Agricultura nordestina sob pressão climática

A região do agreste nordestino, responsável pela maior parte da produção regional de milho, e a área dos cerrados nordestinos — sul do Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia — poderão estar entre as mais atingidas, conforme apontam os dados da Embrapa.

O Nordeste sofrerá perda significativa na produção de milho, arroz, feijão e algodão, alterando profundamente a geografia agrícola da região. A mandioca, cultura essencial para a alimentação local, corre o risco de desaparecer do Semiárido nordestino devido ao aumento das temperaturas.

Resiliência do cajueiro em questão

Paradoxalmente, o cajueiro tem demonstrado características de resiliência que podem ajudá-lo a enfrentar parte desses desafios. Durante a seca severa que afetou o Nordeste entre 2012 e 2017, o cajueiro-anão desenvolvido pela Embrapa mostrou resistência à escassez hídrica e ao ataque de pragas como a mosca-branca.

Gustavo Saavedra, chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical, explica que enquanto outras frutíferas necessitam de altas quantidades de água, o cajueiro consegue produzir bem com uma precipitação anual entre 600 e 800 milímetros.

A planta possui mecanismos fisiológicos únicos. Diferente de muitas espécies cujas folhas caem para evitar perda de água, o cajueiro mantém a folhagem verde, reduzindo a transpiração sem interromper a fotossíntese.

Desafios recentes já impactaram produção

Os últimos anos já demonstraram a vulnerabilidade do setor. Nos últimos dez anos, a produção brasileira anual de caju declinou a uma taxa de 4,96%. Entre 2012 e 2018, houve uma redução da área colhida de cerca de 20%, em função da deficiência hídrica causada por uma estiagem histórica no Nordeste.

A cultura do cajueiro é explorada por aproximadamente 170 mil produtores, em mais de 53 mil propriedades, dos quais 70% são pequenos agricultores com áreas inferiores a 20 hectares. A atividade gera em torno de 250 mil empregos diretos e indiretos na região.

Tecnologia como solução

Para enfrentar os desafios climáticos, a Embrapa desenvolveu 13 clones de cajueiro, sendo 11 voltados especificamente para sistemas de cultivo sem irrigação. O clone CCP 76, mais utilizado no Nordeste, produz até 1.200 kg de castanha e 9.600 kg de pedúnculo por hectare. Enquanto o BRS 226 e o Embrapa 51 podem ultrapassar 1.600 kg/ha em condições ideais de manejo.

O pesquisador Saavedra destaca que no contexto das mudanças climáticas, onde a tendência é que algumas regiões tenham maior redução de chuvas, o cajueiro se sobressai como uma planta resiliente e bem adaptada.

Zoneamento como ferramenta de planejamento

Reconhecendo os riscos climáticos, o cultivo do caju passou a contar com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), publicado no Diário Oficial da União. A ferramenta indica, por município, os períodos mais adequados para o plantio, considerando características do clima, tipo de solo e ciclo de desenvolvimento da planta.

Marlos Bezerra, coordenador do Zarc Caju, explica que pela primeira vez foi utilizada uma metodologia padrão para identificar as regiões aptas para o cultivo do caju, demonstrando inclusive a possibilidade de cultivo em novas áreas, como nos estados de Mato Grosso e Tocantins.

Banco genético como seguro para o futuro

Em Pacajus, no Ceará, o Banco Ativo de Germoplasma de Cajueiro (BAG Caju) é mantido há mais de 50 anos. E concentra a maior coleção de variabilidade genética da espécie no mundo, com mais de 700 acessos. Esse acervo funciona como um seguro para o futuro. Conservando material genético que permite ao Brasil desenvolver variedades mais resistentes a pragas, doenças e mudanças ambientais.

Um estudo publicado na revista PLOS One analisou como as condições de cultivo de café, castanha de caju e abacate mudarão nos próximos 30 anos. A pesquisa indicou um cenário complexo, com algumas regiões perdendo aptidão para essas culturas enquanto outras podem se tornar mais favoráveis.

Para o café, a área potencial de cultivo deve reduzir de 11% a 12% até 2050. E de 22% a 30% até 2070, considerando os cenários de menor e maior aumento nas temperaturas do planeta.

A adaptação do setor agrícola às mudanças climáticas exigirá investimentos em pesquisa, desenvolvimento de novas variedades, adoção de técnicas de manejo sustentável e planejamento estratégico de longo prazo. O futuro da cajucultura e da agricultura nordestina como um todo dependerá da capacidade de combinar tradição com inovação científica.

Do AgroEmCampo

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