Cannabis é um daqueles temas em saúde mental que frequentemente provoca opiniões extremas. Para alguns, representa uma alternativa terapêutica promissora. Para outros, é uma substância associada exclusivamente a riscos. A realidade é mais complexa: dependendo do contexto, pode haver potencial terapêutico, mas também existem riscos psiquiátricos importantes.
Alguns componentes da cannabis, especialmente o CBD (canabidiol), vêm sendo estudados por seus possíveis efeitos terapêuticos. Há evidências mais consistentes para algumas condições neurológicas específicas, enquanto, na psiquiatria, as evidências ainda são mais limitadas e dependem muito da indicação. Portanto, não é adequado considerar cannabis ou seus derivados como tratamento universal para ansiedade, depressão, insônia ou outros transtornos mentais.
Por outro lado, o THC (tetra-hidrocanabinol) possui efeitos psicoativos e pode produzir relaxamento e alteração da percepção em algumas pessoas, mas também pode provocar ansiedade, paranoia, prejuízo da atenção e alterações cognitivas.
E existe outro ponto fundamental: o mesmo produto pode produzir efeitos muito diferentes em pessoas diferentes.
Em indivíduos predispostos, principalmente quando existe uso frequente, doses elevadas ou início precoce, o consumo de cannabis está associado a maior risco de sintomas psicóticos e de transtornos psicóticos. Também pode ocorrer desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis, com perda de controle sobre o consumo, tolerância e dificuldade para interromper.
Outro problema é utilizar cannabis como uma espécie de “automedicação” para ansiedade, insônia, estresse ou sofrimento emocional. A pessoa pode perceber alívio imediato, mas isso não significa necessariamente tratamento da causa. Em alguns casos, o uso repetido pode criar um ciclo no qual a pessoa passa a depender da substância para dormir, relaxar ou enfrentar determinadas situações.
Também precisamos diferenciar cannabis medicinal de uso recreativo. Produtos padronizados, com composição conhecida e indicação médica, não devem ser automaticamente equiparados ao consumo de cannabis com concentrações variáveis de THC.
Então, cannabis é tratamento ou risco?
Pode ser uma coisa ou outra — e, em determinadas situações, pode envolver os dois aspectos ao mesmo tempo.
A pergunta mais importante não deveria ser simplesmente “cannabis faz bem ou faz mal?”, mas:
Qual substância? Qual dose? Qual indicação? Qual frequência? Para qual paciente? E quais são os riscos individuais?
Na saúde mental, decisões terapêuticas devem considerar evidências científicas, diagnóstico, histórico pessoal e familiar, medicamentos em uso e vulnerabilidades individuais.
Natural não significa necessariamente seguro. E potencial terapêutico não significa ausência de risco.
O objetivo não é demonizar nem romantizar a cannabis, mas compreender que, quando falamos de saúde mental, contexto clínico importa tanto quanto a substância.
Silvino Teles Filho
Médico com atuação em Neurologia,Psiquiatria e Medicina da Dor
