Nem toda dor aparece em uma imagem. Nem todo sintoma deixa uma marca em um exame. E nem tudo aquilo que o paciente sente pode ser explicado por uma ressonância magnética, uma tomografia ou uma radiografia. Esse é um dos grandes desafios da medicina: diagnosticar aquilo que o aparelho não consegue enxergar.
Na prática clínica, é comum receber pacientes que convivem há meses ou até anos com dores persistentes, queimação, choques, formigamentos, alterações de sensibilidade ou outros sintomas incapacitantes, mesmo quando os exames de imagem parecem normais ou apresentam alterações que não justificam a intensidade das queixas. Isso não significa que a dor não exista. Significa que a medicina não pode se limitar ao que aparece na tela de um aparelho.
Os exames de imagem são ferramentas extraordinárias e indispensáveis para a medicina moderna. Eles permitem identificar fraturas, tumores, hérnias, alterações articulares e diversas outras condições. Mas uma imagem mostra apenas uma parte da história. O diagnóstico médico é construído a partir da combinação entre a história clínica, o exame físico, as características dos sintomas, sua evolução e os exames complementares.
Existe uma diferença importante entre encontrar uma alteração em uma imagem e compreender se aquela alteração é, de fato, a responsável pelo sofrimento do paciente. Muitas pessoas apresentam alterações em exames que nunca provocaram sintomas. Da mesma forma, existem condições capazes de produzir dor intensa e incapacitante sem necessariamente apresentar uma alteração estrutural evidente nos exames convencionais.
A dor, especialmente a dor crônica, é uma experiência complexa. Ela envolve tecidos, nervos, cérebro, medula espinhal e mecanismos de processamento e modulação da informação. Em algumas situações, o problema não está simplesmente em uma estrutura que possa ser fotografada, mas na forma como o sistema nervoso está funcionando e processando os estímulos.
Por isso, quando um paciente descreve uma dor em queimação, choques, hipersensibilidade, dormência ou alterações que seguem determinado padrão, essas informações podem ser tão importantes quanto uma imagem. A maneira como a dor começou, o que a desencadeia, o que a alivia, sua distribuição e sua evolução ao longo do tempo são elementos fundamentais para construir um diagnóstico.
Antes de qualquer aparelho, existe a história contada pelo paciente. Existe a observação clínica. Existe o exame físico. Existe a experiência do médico em reconhecer padrões e identificar sinais que, muitas vezes, não aparecem em nenhum exame de imagem.
Talvez uma das frases mais frustrantes para quem sofre com dor seja ouvir: “Seu exame está normal”. Um exame normal pode, sim, ser uma informação importante. Mas ele não deve encerrar automaticamente a investigação quando os sintomas são reais, persistentes e clinicamente relevantes. Quando a imagem não explica o que o paciente sente, é preciso voltar ao início, ouvir novamente, examinar novamente, rever hipóteses e buscar outros mecanismos possíveis.
O objetivo da medicina não é tratar uma imagem. É tratar uma pessoa.
A tecnologia trouxe recursos extraordinários para o diagnóstico e para o tratamento, mas, quanto mais sofisticados se tornam os aparelhos, mais importante continua sendo uma habilidade aparentemente simples: saber ouvir, observar e examinar.
Existem diagnósticos que aparecem claramente em uma imagem. Outros aparecem na história clínica. Alguns estão no exame físico. E muitos exigem a integração de todas essas informações.
O verdadeiro desafio não é apenas descobrir o que o aparelho consegue enxergar. É ter conhecimento, experiência e sensibilidade clínica para investigar aquilo que ele não consegue mostrar.
Porque, na medicina, nem tudo que é real pode ser visto. E nem tudo que pode ser visto é, necessariamente, a causa do sofrimento.
Silvino Teles Filho
Médico com pós graduação em Neurologia,Psiquiatria Clínica
Blog Joãozinho Teles Veja as Notícias do Sertão do Pajeú, de Pernambuco, do Brasil e do Mundo!
